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O emaranhado
novelo da minha memória,
deparo na escuridão dos nós cegos.
Puxo uma ponta de fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que não se desfaça
entre os dedos.
No fio longo, sinto sua presença, mas você
corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas
abertas,
e de repente não sei se as águas nascem de mim,
ou para mim fluem.
Continuo a puxar, e não há memória apenas,
mas as
águas transformam-se em um grande e caudaloso rio.
Sobre ele navegam barcos, mas no céu que os
cobre,
é uma única lágrima, que escorreu de meu
rosto.
Nele o reflexo de tua imagem,
mas correnteza te leva embora.
Tento segui-la inutilmente, as águas vão
levando
consigo o que tinha restado de tudo.
Sinto a força dos braços nas ondas que se
prolonga.
No fundo do rio e de mim, desce como um
lento e
firme pulsar do coração.
Quando num largo espaço me detenho, o meu
corpo despido brilha debaixo do sol, entre o
esplendor maior que acende a superfície das
águas.
Aí se fundem numa só verdade e em lembranças
confusas
da memória. O vulto subitamente anunciado
do
futuro, anunciava o fim, e nada mais
restava.
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